Nesse tempo na Figueira
havia velhas sem freio:
travavam uma criança no meio
do passeio
só para a arranhar com os bigodes.
Eu não podia fugir,
com a minha avó a empurrar-me:
"Dá um beijinho, vá..."
Mas passada essa hora má,
essa espécie de torvelinho,
as velhas iam sem ruído
à sua vida, coitadas:
dois casacos, um vestido, perfume de ovo mexido
e moedas oxidadas.
A minha avó sabia a história delas:
"As Ornelas foram ricas,
as Barrosão ainda o são,
a mais baixinha ensina
a doutrina às crianças.
Nenhuma das três Parrancas
casou. Mas muito pior ficou
a Berta Araújo cujo
a mais baixinha ensina
a doutrina às crianças.
Nenhuma das três Parrancas
casou. Mas muito pior ficou
a Berta Araújo cujo
marido fugiu com outra.
Sabe-se lá se ela passa necessidades..."
Afrouxávamos o passo junto ao casarão descambado onde morava a Berta Araújo colega da minha avó nas aulas de piano. Vidraças foscas, janelas de guilhotina que nos tiravam a vontade de falar. Quem ali vivia, precisava de ter muito cuidadinho com a cabeça.
Sem comentários:
Enviar um comentário